O que é um recurso não convencional?

Os “recursos não convencionais” são fontes de petróleo e gás natural que não podem ser extraídas utilizando as técnicas tradicionais de perfuração. Ao contrário dos recursos convencionais, que estão localizados em reservatórios mais facilmente acessíveis e de fácil produção, os recursos não convencionais estão presentes em formações geológicas que exigem métodos de extração mais complexos.

O termo “recursos não convencionais” pode se referir a muitos tipos de recursos diferentes, incluindo petróleo e gás localizados em rochas com permeabilidade muito baixa ou petróleo com viscosidade muito alta, o que o que impede que os recursos fluam naturalmente para um poço.

A expressão “reservatórios não convencionais” se refere às rochas que contêm o petróleo ou gás nessas condições.

Apesar da grande diversidade de recursos não convencionais, o Projeto Poço Transparente é focado no estudo de reservatórios não convencionais de baixa permeabilidade.

O que é fraturamento hidráulico?

Os reservatórios não convencionais não podem ser produzidos utilizando exatamente as mesmas técnicas tradicionais de perfuração. Grande parte do processo de perfuração é o mesmo já consagrado pela indústria e aplicado milhares de vezes no Brasil. Mas os recursos desses reservatórios se encontram presos em rochas de baixíssima permeabilidade, o que impede a sua drenagem natural para um poço. Para que a extração desses reservatórios atinja uma produtividade que torne a operação viável, duas técnicas adicionais são aplicadas: a perfuração direcional e o fraturamento hidráulico (ou fracking, no inglês).

A perfuração direcional permite alterar a inclinação e a direção dos poços. Desse modo, é possível perfurar poços horizontais, com ângulos que se aproximam de 90°, de modo a aumentar o contato do poço com o reservatório e a capacidade do poço de drenar o petróleo e gás natural.

Após a perfuração, os poços são revestidos com tubos de aço e cimentados, para assegurar a sua estabilidade. Na sequência, são aplicadas técnicas de estímulo do reservatório, que são tratamentos realizados para aumentar a sua produtividade.

A principal técnica de estímulo utilizada em reservatórios não convencionais é o fraturamento hidráulico, que consiste na injeção de um fluido na formação rochosa a alta pressão, de modo a formar fissuras na rocha. Durante a técnica, é utilizado o fluido de fraturamento, geralmente à base de água e areia (que evita o fechamento das fraturas).

O conceito de fraturamento hidráulico não é novo. Técnicas desse tipo já foram extensamente utilizadas em milhares de poços desde a década de 1950. A técnica, em menor intensidade, também é utilizada com frequência em reservatórios convencionais para aumentar a drenagem do poço.

O fraturamento hidráulico objeto de maior atenção pública, e que se tornou recorrente nos últimos 20 anos, é aquele usado em reservatórios de shale (folhelhos) com aplicação de níveis mais altos de pressão aplicada a partir de poços horizontais.

Foi a partir da evolução dessa tecnologia, no começo dos anos 2000, que se tornou possível produzir em larga escala em reservatórios que, até então, eram comercialmente inviáveis. Essa técnica revolucionou a indústria de energia, aumentando exponencialmente a produção de petróleo e gás em várias regiões, especialmente nos Estados Unidos.

O que o Brasil ganha estudando os recursos não convencionais?

O estudo de recursos não convencionais pode trazer diversos benefícios para o Brasil. A partir de uma abordagem cautelosa e pautada na segurança operacional e do meio ambiente, os estudos permitirão verificar as características do nosso subsolo. Isso permite não apenas confirmar qual o potencial de cada zona possivelmente produtora, mas também definir em quais áreas e sob quais condições é seguro realizar as atividades.

Caso os resultados sejam positivos, o Brasil pode ser capaz de aumentar a sua produção de gás natural, que é um recurso energético de menor intensidade de carbono essencial para a transição energética. Também será possível renovar as reservas brasileiras e sustentar o nível de produção a partir de regiões terrestres de menor sensibilidade ambiental, reduzindo a pressão para expansão exploratória em zonas marítimas mais sensíveis.

As projeções de transição energética, mesmo nos cenários mais otimistas, comprovam que a sociedade ainda continuará demandando petróleo e gás natural por muitas décadas. Nessa realidade, é desejável que o Brasil possa assegurar que a exploração desses recursos obedeça parâmetros ambientais adequados e que a geração de empregos e receitas ocorra no Brasil.

Caso o Brasil não seja capaz, no futuro, de atender a demanda nacional por petróleo e gás natural, inevitavelmente se verá forçado a comprar esses recursos de outros países, que em muitos casos não observam os mesmos parâmetros ambientais brasileiros. Também é provável que, dentre os fornecedores estrangeiros, estejam países que produzem a partir de fraturamento hidráulico, de forma que o Brasil estaria apenas exportando o risco, perdendo a oportunidade de influenciar em seu controle. 

Quais são os riscos?

A exploração de recursos não convencionais, como qualquer outra atividade industrial, envolve riscos que precisam ser cuidadosamente considerados.

Quando passou a ser aplicada em larga escala nos Estados Unidos, a técnica de fraturamento hidráulico veio acompanhada de dúvidas sobre os seus possíveis efeitos no meio ambiente e nas comunidades vizinhas, incluindo preocupações sobre influência em aquíferos ou reflexos de movimentação sísmica na superfície. Essas preocupações levaram diversos governos ao redor do mundo a adotar uma postura cautelosa, exigindo a conclusão de estudos e definição de regulações estabelecendo os parâmetros seguros de operação.

Com o avanço da tecnologia e a experiencia adquirida após a conclusão de centenas de milhares de poços, atualmente existe um controle muito maior sobre o processo de perfuração horizontal, permitindo garantir que os poços atravessarão apenas as zonas consideradas seguras. Também há um conhecimento e controle muito maior sobre os efeitos que o fraturamento causa ao subsolo no entorno do poço, permitindo antecipar e controlar a zona de influência da atividade.

A importância do Projeto Poço Transparente é permitir a aplicação de todo esse conhecimento à realidade do subsolo brasileiro. A partir do projeto, será possível entender como o subsolo da zona perfurada irá reagir às estimulações e quais são os parâmetros seguros de operação. Trata-se de uma abordagem muito cautelosa, que determinará o avanço da técnica e influenciará a futura regulação com base em constatações empíricas obtidas em campo.

5. É possível mitigar esses riscos?

Sim, é possível mitigar os riscos associados à exploração de recursos não convencionais por meio de diversas estratégias e práticas de gestão.

Primeiramente, a implementação de regulamentações adequadas é importante para garantir que as operações de fraturamento hidráulico sejam realizadas de forma segura e responsável. Isso inclui a exigência de licenças ambientais, avaliações de impacto e monitoramento das atividades.

Além disso, o uso de tecnologias avançadas pode ajudar a reduzir os riscos, como a aplicação de métodos de fraturamento mais seguros e a utilização de produtos químicos menos prejudiciais ao meio ambiente.

A transparência nas operações e a comunicação com as comunidades locais também são fundamentais para construir confiança e garantir que as preocupações da população sejam ouvidas e abordadas.

Programas de gestão de águas residuais, que asseguram o tratamento adequado dos fluidos gerados, são igualmente importantes.

Os recursos não convencionais são compatíveis com a transição energética?

A transição energética envolve a substituição gradual de fontes energéticas mais poluentes por fontes menos poluentes. O gás natural é considerado o combustível por excelência da transição energética, por ser um combustível mais limpo e de menor intensidade de carbono do que os derivados do petróleo ou o carvão.

Grande parte das zonas de interesse de recursos não convencionais mapeadas no Brasil tem potencial justamente para produção de gás natural.

A maior parte do gás natural produzido no Brasil é o chamado gás associado, que decorre da produção de petróleo. Além disso, grande parte do gás vem de campos marítimos localizados em águas profundas, que exigem a construção de longos gasodutos submarinos. A possibilidade de produção de gás natural não associado em zonas terrestres representa uma mudança de paradigma, permitindo uma operação com riscos menores, menor impacto de superfície e maior capacidade de distribuição de riquezas para as zonas produtoras. Grande parte das regiões com potencial de recursos não convencionais já são zonas antigas de produção petrolífera, o que ainda permitiria, nesses casos, o aproveitamento de infraestrutura existente e a manutenção de empregos e impostos.

O avanço nos estudos de recursos não convencionais no Brasil também abre oportunidades para outros recursos ainda mais avançados e limpos. Alguns indicadores apontam para o potencial de produção de hidrogênio natural a partir de alguns reservatórios não convencionais. Também têm avançado consideravelmente os estudos para a aplicação de técnicas de fraturamento hidráulico para viabilizar a geração geotérmica, que é a geração de energia a partir de fontes de calor no subsolo.