Os “recursos não convencionais” são fontes de petróleo e gás natural que não podem ser extraídas utilizando as técnicas tradicionais de perfuração. Ao contrário dos recursos convencionais, que estão localizados em reservatórios mais facilmente acessíveis e de fácil produção, os recursos não convencionais estão presentes em formações geológicas que exigem métodos de extração mais complexos.
O termo “recursos não convencionais” pode se referir a muitos tipos de recursos diferentes, incluindo petróleo e gás localizados em rochas com permeabilidade muito baixa ou petróleo com viscosidade muito alta, o que o que impede que os recursos fluam naturalmente para um poço.
A expressão “reservatórios não convencionais” se refere às rochas que contêm o petróleo ou gás nessas condições.
Apesar da grande diversidade de recursos não convencionais, o Projeto Poço Transparente é focado no estudo de reservatórios não convencionais de baixa permeabilidade.
Os reservatórios não convencionais não podem ser produzidos utilizando exatamente as mesmas técnicas tradicionais de perfuração. Grande parte do processo de perfuração é o mesmo já consagrado pela indústria e aplicado milhares de vezes no Brasil. Mas os recursos desses reservatórios se encontram presos em rochas de baixíssima permeabilidade, o que impede a sua drenagem natural para um poço. Para que a extração desses reservatórios atinja uma produtividade que torne a operação viável, duas técnicas adicionais são aplicadas: a perfuração direcional e o fraturamento hidráulico (ou fracking, no inglês).
A perfuração direcional permite alterar a inclinação e a direção dos poços. Desse modo, é possível perfurar poços horizontais, com ângulos que se aproximam de 90°, de modo a aumentar o contato do poço com o reservatório e a capacidade do poço de drenar o petróleo e gás natural.
Após a perfuração, os poços são revestidos com tubos de aço e cimentados, para assegurar a sua estabilidade. Na sequência, são aplicadas técnicas de estímulo do reservatório, que são tratamentos realizados para aumentar a sua produtividade.
A principal técnica de estímulo utilizada em reservatórios não convencionais é o fraturamento hidráulico, que consiste na injeção de um fluido na formação rochosa a alta pressão, de modo a formar fissuras na rocha. Durante a técnica, é utilizado o fluido de fraturamento, geralmente à base de água e areia (que evita o fechamento das fraturas).
O conceito de fraturamento hidráulico não é novo. Técnicas desse tipo já foram extensamente utilizadas em milhares de poços desde a década de 1950. A técnica, em menor intensidade, também é utilizada com frequência em reservatórios convencionais para aumentar a drenagem do poço.
O fraturamento hidráulico objeto de maior atenção pública, e que se tornou recorrente nos últimos 20 anos, é aquele usado em reservatórios de shale (folhelhos) com aplicação de níveis mais altos de pressão aplicada a partir de poços horizontais.
Foi a partir da evolução dessa tecnologia, no começo dos anos 2000, que se tornou possível produzir em larga escala em reservatórios que, até então, eram comercialmente inviáveis. Essa técnica revolucionou a indústria de energia, aumentando exponencialmente a produção de petróleo e gás em várias regiões, especialmente nos Estados Unidos.
O que o Brasil ganha estudando os recursos não convencionais?
O estudo de recursos não convencionais pode trazer diversos benefícios para o Brasil. A partir de uma abordagem cautelosa e pautada na segurança operacional e do meio ambiente, os estudos permitirão verificar as características do nosso subsolo. Isso permite não apenas confirmar qual o potencial de cada zona possivelmente produtora, mas também definir em quais áreas e sob quais condições é seguro realizar as atividades.
Caso os resultados sejam positivos, o Brasil pode ser capaz de aumentar a sua produção de gás natural, que é um recurso energético de menor intensidade de carbono essencial para a transição energética. Também será possível renovar as reservas brasileiras e sustentar o nível de produção a partir de regiões terrestres de menor sensibilidade ambiental, reduzindo a pressão para expansão exploratória em zonas marítimas mais sensíveis.
As projeções de transição energética, mesmo nos cenários mais otimistas, comprovam que a sociedade ainda continuará demandando petróleo e gás natural por muitas décadas. Nessa realidade, é desejável que o Brasil possa assegurar que a exploração desses recursos obedeça parâmetros ambientais adequados e que a geração de empregos e receitas ocorra no Brasil.
Caso o Brasil não seja capaz, no futuro, de atender a demanda nacional por petróleo e gás natural, inevitavelmente se verá forçado a comprar esses recursos de outros países, que em muitos casos não observam os mesmos parâmetros ambientais brasileiros. Também é provável que, dentre os fornecedores estrangeiros, estejam países que produzem a partir de fraturamento hidráulico, de forma que o Brasil estaria apenas exportando o risco, perdendo a oportunidade de influenciar em seu controle.
Quais são os riscos?
A exploração de recursos não convencionais, como qualquer outra atividade industrial, envolve riscos que precisam ser cuidadosamente considerados.
Quando passou a ser aplicada em larga escala nos Estados Unidos, a técnica de fraturamento hidráulico veio acompanhada de dúvidas sobre os seus possíveis efeitos no meio ambiente e nas comunidades vizinhas, incluindo preocupações sobre influência em aquíferos ou reflexos de movimentação sísmica na superfície. Essas preocupações levaram diversos governos ao redor do mundo a adotar uma postura cautelosa, exigindo a conclusão de estudos e definição de regulações estabelecendo os parâmetros seguros de operação.
Com o avanço da tecnologia e a experiencia adquirida após a conclusão de centenas de milhares de poços, atualmente existe um controle muito maior sobre o processo de perfuração horizontal, permitindo garantir que os poços atravessarão apenas as zonas consideradas seguras. Também há um conhecimento e controle muito maior sobre os efeitos que o fraturamento causa ao subsolo no entorno do poço, permitindo antecipar e controlar a zona de influência da atividade.
A importância do Projeto Poço Transparente é permitir a aplicação de todo esse conhecimento à realidade do subsolo brasileiro. A partir do projeto, será possível entender como o subsolo da zona perfurada irá reagir às estimulações e quais são os parâmetros seguros de operação. Trata-se de uma abordagem muito cautelosa, que determinará o avanço da técnica e influenciará a futura regulação com base em constatações empíricas obtidas em campo.
5. É possível mitigar esses riscos?
Sim, é possível mitigar os riscos associados à exploração de recursos não convencionais por meio de diversas estratégias e práticas de gestão.
Primeiramente, a implementação de regulamentações adequadas é importante para garantir que as operações de fraturamento hidráulico sejam realizadas de forma segura e responsável. Isso inclui a exigência de licenças ambientais, avaliações de impacto e monitoramento das atividades.
Além disso, o uso de tecnologias avançadas pode ajudar a reduzir os riscos, como a aplicação de métodos de fraturamento mais seguros e a utilização de produtos químicos menos prejudiciais ao meio ambiente.
A transparência nas operações e a comunicação com as comunidades locais também são fundamentais para construir confiança e garantir que as preocupações da população sejam ouvidas e abordadas.
Programas de gestão de águas residuais, que asseguram o tratamento adequado dos fluidos gerados, são igualmente importantes.
Os recursos não convencionais são compatíveis com a transição energética?
A transição energética envolve a substituição gradual de fontes energéticas mais poluentes por fontes menos poluentes. O gás natural é considerado o combustível por excelência da transição energética, por ser um combustível mais limpo e de menor intensidade de carbono do que os derivados do petróleo ou o carvão.
Grande parte das zonas de interesse de recursos não convencionais mapeadas no Brasil tem potencial justamente para produção de gás natural.
A maior parte do gás natural produzido no Brasil é o chamado gás associado, que decorre da produção de petróleo. Além disso, grande parte do gás vem de campos marítimos localizados em águas profundas, que exigem a construção de longos gasodutos submarinos. A possibilidade de produção de gás natural não associado em zonas terrestres representa uma mudança de paradigma, permitindo uma operação com riscos menores, menor impacto de superfície e maior capacidade de distribuição de riquezas para as zonas produtoras. Grande parte das regiões com potencial de recursos não convencionais já são zonas antigas de produção petrolífera, o que ainda permitiria, nesses casos, o aproveitamento de infraestrutura existente e a manutenção de empregos e impostos.
O avanço nos estudos de recursos não convencionais no Brasil também abre oportunidades para outros recursos ainda mais avançados e limpos. Alguns indicadores apontam para o potencial de produção de hidrogênio natural a partir de alguns reservatórios não convencionais. Também têm avançado consideravelmente os estudos para a aplicação de técnicas de fraturamento hidráulico para viabilizar a geração geotérmica, que é a geração de energia a partir de fontes de calor no subsolo.